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Quando se perde o controle, tudo é vão;

Quando se pode, paralítico de tudo, prever;

O desastroso destino de quem insiste no erro de viver nesta doença;

De quem sabe que não há volta;

 

De quem plantou sementes mortas em solo de concreto;

 

Não há tempo;

Não há cura para tanta angústia realimentada;

Não há morte para os mortos;

A vontade fugidia;

A tardia verdade;

A maldade das horas no rosto e no peito;

 

Quando não há mais sentido, tudo é vão;

A memória vira um demônio brincalhão, insaciável;

Pegadas somem e não existem digitais;

Queimam as manhãs mortificadas na dor da alma;

 

Eu quero ir embora;

Deixar para trás os cadáveres que carrego no coração;

Deixar que descansem do meu pesar;

Que me deixem descansar deste mundo que eu jamais quis.



Escrito por saci às 15h04
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Poema Preguiçoso

 

Passo todos os dias nos mesmos lugares;

Desafiando todos os padrões estéticos da feiúra;

Feder, não fedo;

A menos que tenha fumado ou suado muito;

Manco ou trôpego de desespero e descuido;

Olho muito mais para o nada;

Miro meu rumo no vácuo das coisas;

Fico só, na maioria das vezes por opção, e calado;

Faço brincadeirinhas desastrosas;

Que eram para ser espirituosas, mas nunca funcionam;

Não encaixo em grupo e não falo bem em público;

Escolhi escrever para demonstrar alguma virtude;

E ando com uma preguiça desgraçada de escrever...

 



Escrito por saci às 11h40
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Por tudo o que segue;

Quero te ver levantar;

Por tudo o que sangra;

Você não pode estancar;

Nem tudo o que quebra;

Perdeu facilmente a dureza;

Por todo este vazio da cama;

E este copo cheio na mesa.



Escrito por saci às 11h43
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Escrito (editado)

 

Trocadilho inteligente;

Ou prepotente;

Frase forte em inglês;

Ashes to ashes;

De pronúncia grave;

Dust to dust;

De anúncio ou lamento;

Um Millôr na gargalhada;

Um poema, uma piada;

Manusdatilografada;

Mimeógrafos imprimem;

Com cheirinho bom de álcool;

Tudo escrito para ler-se;

A velha estante na poeira;

À velha luz de lareira;

A moça lê nos meus olhos;

O amor que é dela e eu não escrevo.    

 



Escrito por saci às 13h05
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Eu sou um velho;

Não tenho paciência;

Tô sempre cansado;

Não gosto de sol na cabeça;

Não freqüento lugares cheios de gente;

Barulho me irrita;

Velocidade pra mim é vertigem;

Eu sou um velho chato;

Não tenho mais sonhos de amor;

Não quero mais nada de mim;

Os meus melhores momentos se foram;

Eu sou um velho antigo;

Sou grisalho de alma;

Ajudo pessoas a ficarem tristes;

Embalo tristezas na cadeira de balanço;

Não tomo remédios, mas devia;

Reclamo dos jovens;

Não entendo a música contemporânea;

E não morro só de birra.



Escrito por saci às 12h50
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Ela passou a vida inteira se escondendo;

Entre tecidos e passos leves;

Entre silêncios e falas breves;

Entre as pernas, um travesseiro;

Em meio a este afogar-se na secura;

Ela passou a vida inteira em sobressaltos;

Pisando em ovos;

A esgueirar-se de calores;

A resfriar caudalosas intuições;

Ela passou a vida inteira consternada;

E não sabia. Que aqueles dias em que mais chorava;

O sol brilhava mais quando nascia;

Ela aplacava profundos desejos;

Ela calava a ira que grunhia;

Ela passou a vida inteira cega;

E a vida quase lhe passou vazia;

Deixou-lhe o tempo que passou depressa;

Deixei-lhe música e poesia;

E este amor que ainda trago inteiro;

Hei de entregar todo pra ela um dia.    



Escrito por saci às 01h02
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Sigo imerso no meu poço de tristeza;

Repleto de aspereza e de falta de razão;

Estou ficando já completamente;

Louco, farto de ter de carregar-me;

A todos os lugares onde vou;

Não quero a minha cara pela frente;

Nem pintada de vermelho, ou de luz;

Não quero este total desequilíbrio;

Quero parar de me matar diariamente;

Eu todos os dias me mato;

Sinto-me farto de carregar-me;

Sinto na carne;

Sigo imerso no meu poço de tristeza;

Flertando de vez em quando;

Sempre do lado de fora;

Com qualquer espécie de quase amor;

Tão esporádico quanto raso;

Tanta dor chega a ser falta de respeito;

Chega a ser engraçado;

Pastelão trágico sem espectadores e sem fim;

Repleto de aspereza e de falta de razão;

Vejo que não há finalidade em mim.



Escrito por saci às 13h53
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Feliz Ano Novo

 

Batatas fritas assassinas entram pela boca com suas bombas de óleo. Gordura saturada por três dias. Elas vêm em companhia de dois belíssimos e pútridos hot dogs de salsichas fabricadas com restos de carne da pior qualidade, conservantes e corantes poderosos. Esses que deixam qualquer câncer com cara de criança saudável.

Um copo exageradamente  gigantesco de refrigerante tipo cola, com quatro pedras de gelo de água imunda e uma rodela verdíssima de limão. O limão é para que se sinta ingerindo algum micro vestígio de coisa natural em estado bruto.

Com o perdão do trocadilho infeliz, tamanha brutalidade comestível certamente há de combinar com o sabor destes dias apressados e sem espaço para o cultivo de amenidades. É um tempo sem mostarda, sem catchup e repleto da mais nojenta maionese de ovo com salsinha.

Correndo o risco de parecer frescura, quero expor minha saudade-utopia de uma época com mais salmão, rúcula, gorgonzola com copa, feijoada do Fabrício, sopa de capeletti, comida da mamãe e, no meu caso, tenho sorte de sentir falta até dos rangos inventados pelo meu pai. Uma sorte ou um lamento a mais? Prefiro guardar como memória divertida para quando estamos longe uns dos outros.

 Ah, antes de mais nada, eu não vou negar que tenho sim, e com certa freqüência, acesso a isso tudo que eu citei aí em se tratando estritamente de culinária. Entretanto, eu falo aqui de jeitos de viver. Misturar mais sabores diferenciados, condutas mais nobres no dia-a-dia das pessoas. Apesar de a alusão ser tão fraca e superficial quanto os nutrientes do rango-bomba que inicia o texto.

Sei que a falta de educação é questão de falta de educação mesmo. Também sei que em tempos de fome, miséria, desemprego, violência, crise mundial, guerras ("tempos" que a gente insiste em tentar encerrar num presente passageiro, à espera de um milagre que resolva essas características humanas naturais e mal-resolvidas no psiquismo da humanidade desde sempre - ad eterno), falar em amenidades é meio inadequado. Sempre será, pois.

Então aproveito o clima de ano novo e tal, que boa parte das pessoas faz planos de modificação de conduta, para desejar mais tempero apimentado para quem precisa levantar do chão e reagir. Bem como, pratos leves e de fácil digestão a quem necessita arrefecer a azia da vida.

O que interessa é não parar de mexer a mistura da panela. Feliz ano novo.  



Escrito por saci às 11h54
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Dica de Som (dando uma folga aos poemas)

A Orquestra Imperial é uma daquelas coisas sonoras bem-vindas que a música brasileira pipoca nos ouvidos da gente de tempos em tempos. Coisa esta, a que me refiro ao citar música, já contando com o perdão do leitor. A música deles tem um jeito. E repare bem no jeito delas. Das meninas da Orquestra. É, sem dúvida, uma banda especial.

Tem sorriso no som da Orquestra Imperial. É mais uma trupe, um grupo diversificado de gente boa de som e boa de espírito, do que um simples grupo musical. Tem uma antiguidade ótima no som da Orquestra Imperial.  A galera brinca com música e faz a música brincar com a gente. De forma quase leviana, faz roqueiro bater o pé no chão acompanhando um bolero.

Música boa, leve, sem compromisso com nada que não a própria música.



Escrito por saci às 17h13
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Do lado de dentro desta imensa janela;

Fechada do frio e translúcida;

Mora a mulher dos meus olhos ;

A que velo e agora dorme;

A mulher que não se pode ver;

Coberta de nuvem e lençol;

Pairando no meio dos céus;

Atrás dos vitrais das manhãs;

Ardendo no fogo de si;

A mulher que me faz duvidar da bondade de Deus;

Esta que sempre está;

Doravante e desde sempre;

De onde vêm este poder e esta fraqueza?

Para onde vai tanto sofrimento?

A que engrenagem maldita se presta?



Escrito por saci às 13h59
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Poema da Extremna Pretensão

 

Sou de onde nada existe e de onde tudo vem;

Minha referência é a essência de ninguém;

Sou de onde o natimorto julgamento se desfaz;

Pleno leve movimento, minha dor é meu cartaz;

Fecho os olhos contra o vento e sinto a direção;

Do perfume da morena colorindo a imensidão;

Abro os braços contra o vento e abraço o que vier;

Sou repleto, sou vazio; Eu sou a porra que eu quiser;

E é assim, do meu jeito, contra o vento, ao meu modo;

Que eu crio a substância que confirma o que eu discordo.

Escrito por saci às 11h50
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Abandonar antigos hábitos;

Enterrar vícios e conselhos de mãe;

Fugir das salas fechadas e da secura dos jardins;

Pisar com mais afinco de profundidade nas areias;

Vasculhar crenças e redesenhá-las sob nova perspectiva;

Contrair o amor do teu sangue como vírus;

Gotejar, em vez de derramar perdões;

Imergir mais fundo e de olhos abertos;

E imaginar estar ciente disso tudo.



Escrito por saci às 00h07
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Vai andando;

Como se não fosse mais voltar;

Como quem se entrega ao simples fim;

Assim bem como quem faz desonhar;

Sem parar;

Vai até sumir, sem perceber;

Vai sem mim, até desavisada anoitecer;

Vai crescer;

Propagar este abandono pelo ar;

Gravar teu desamor no dorso  perplexo do mundo;

Sem cogitar, sem repensar, vai sem falar.



Escrito por saci às 13h37
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Resoluto

Resolvi de uma vez gostar de ti;

Numa dessas atitudes sem razão;

Irresponsavelmente, como se usa droga;

Resolvi e pronto;

E te escolhi pra atrapalhar meu dia;

Pra encher meu pensamento de bobagem;

Confundir meu raciocínio;

No meio de uma resenha sobre a crise econômica mundial;

Lá está você;

Linda, cheirosa e disponível para as minhas fantasias;

Inventei, assim, sem mais nem menos;

Que a partir de hoje vou querer você;

Por algum tempo, que tudo há de enjoar também;

Sem grandes dramas;

E não vou deixar que você perceba nada;

Minha menina distante;

Você me faz perceber os encaixes do mundo;

Agora, me deixa trabalhar um pouco.

 



Escrito por saci às 11h25
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Poema Acabado

Seguiremos nos inacabando;

Até que um dia nos terminaremos;

Elegeremos as vontades ao acaso;

E casaremo-nos já tarde, extenuados;

E bem felizes, fartos e exauridos;

Nós maldiremos amores perdidos;

E morreremos calmos, abraçados.

 

 



Escrito por saci às 11h04
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