Batatas fritas assassinas entram pela boca com suas bombas de óleo. Gordura saturada por três dias. Elas vêm em companhia de dois belíssimos e pútridos hot dogs de salsichas fabricadas com restos de carne da pior qualidade, conservantes e corantes poderosos. Esses que deixam qualquer câncer com cara de criança saudável.
Um copo exageradamente gigantesco de refrigerante tipo cola, com quatro pedras de gelo de água imunda e uma rodela verdíssima de limão. O limão é para que se sinta ingerindo algum micro vestígio de coisa natural em estado bruto.
Com o perdão do trocadilho infeliz, tamanha brutalidade comestível certamente há de combinar com o sabor destes dias apressados e sem espaço para o cultivo de amenidades. É um tempo sem mostarda, sem catchup e repleto da mais nojenta maionese de ovo com salsinha.
Correndo o risco de parecer frescura, quero expor minha saudade-utopia de uma época com mais salmão, rúcula, gorgonzola com copa, feijoada do Fabrício, sopa de capeletti, comida da mamãe e, no meu caso, tenho sorte de sentir falta até dos rangos inventados pelo meu pai. Uma sorte ou um lamento a mais? Prefiro guardar como memória divertida para quando estamos longe uns dos outros.
Ah, antes de mais nada, eu não vou negar que tenho sim, e com certa freqüência, acesso a isso tudo que eu citei aí em se tratando estritamente de culinária. Entretanto, eu falo aqui de jeitos de viver. Misturar mais sabores diferenciados, condutas mais nobres no dia-a-dia das pessoas. Apesar de a alusão ser tão fraca e superficial quanto os nutrientes do rango-bomba que inicia o texto.
Sei que a falta de educação é questão de falta de educação mesmo. Também sei que em tempos de fome, miséria, desemprego, violência, crise mundial, guerras ("tempos" que a gente insiste em tentar encerrar num presente passageiro, à espera de um milagre que resolva essas características humanas naturais e mal-resolvidas no psiquismo da humanidade desde sempre - ad eterno), falar em amenidades é meio inadequado. Sempre será, pois.
Então aproveito o clima de ano novo e tal, que boa parte das pessoas faz planos de modificação de conduta, para desejar mais tempero apimentado para quem precisa levantar do chão e reagir. Bem como, pratos leves e de fácil digestão a quem necessita arrefecer a azia da vida.
O que interessa é não parar de mexer a mistura da panela. Feliz ano novo.
A Orquestra Imperial é uma daquelas coisas sonoras bem-vindas que a música brasileira pipoca nos ouvidos da gente de tempos em tempos. Coisa esta, a que me refiro ao citar música, já contando com o perdão do leitor. A música deles tem um jeito. E repare bem no jeito delas. Das meninas da Orquestra. É, sem dúvida, uma banda especial.
Tem sorriso no som da Orquestra Imperial. É mais uma trupe, um grupo diversificado de gente boa de som e boa de espírito, do que um simples grupo musical. Tem uma antiguidade ótima no som da Orquestra Imperial. A galera brinca com música e faz a música brincar com a gente. De forma quase leviana, faz roqueiro bater o pé no chão acompanhando um bolero.
Música boa, leve, sem compromisso com nada que não a própria música.